Toda mãe merece ser cuidada: saúde mental materna ganha espaço de acolhimento em Belém

Por Camila Eneyla Costa

Quando um bebê nasce, é comum que todas as atenções se voltem para ele. A família celebra sua chegada, amigos visitam, presentes chegam e uma nova rotina começa a ser construída ao redor daquela pequena vida. No entanto, em meio à alegria e às expectativas, muitas vezes esquecemos que também nasce uma mãe — uma mulher que atravessa profundas transformações físicas, emocionais, hormonais e sociais e que, assim como o bebê, também precisa de cuidado, acolhimento e atenção.

Foi justamente para ampliar essa conscientização que aconteceu, em Belém, um encontro promovido pelo Maio Furta-Cor, movimento que se tornou referência nacional na defesa da saúde mental materna. A campanha surgiu com o propósito de dar visibilidade aos aspectos emocionais da maternidade, promovendo debates, ações educativas e espaços de escuta para mães, famílias e profissionais. Mais do que falar sobre transtornos específicos, o movimento busca sensibilizar a sociedade para uma realidade muitas vezes negligenciada: a maternidade também pode ser atravessada por sofrimento psíquico, sobrecarga emocional, solidão e exaustão.

Durante a roda de conversa, crianças recebem acolhimento também.

E se a informação é uma ferramenta essencial para transformar realidades, o acolhimento é o que permite que essa transformação aconteça de forma concreta. Por isso, o local escolhido para sediar o encontro teve um significado especial. A programação aconteceu no Mamãe Full-Time, espaço que funciona como um verdadeiro quintal de casa em plena cidade. Ali, as crianças podem correr, explorar, brincar livremente, se conectar com a natureza e viver a infância de maneira espontânea. Ao mesmo tempo, mães, pais e familiares encontram um ambiente seguro para conversar, trocar experiências e construir vínculos. Em uma sociedade onde muitas mulheres vivenciam a maternidade sem uma rede de apoio estruturada, espaços como esse representam um importante refúgio emocional.

Ao longo da programação, dezenas de famílias participaram das atividades. Muitas mães chegaram acompanhadas de bebês ainda de colo, outras levaram filhos maiores, mas todas encontraram um ambiente propício para compartilhar vivências e perceber que não estão sozinhas em suas jornadas. Mais do que um encontro, o evento se transformou em um espaço de reconhecimento coletivo, onde histórias distintas revelavam sentimentos muito semelhantes. E algumas dessas histórias ajudam a compreender por que falar sobre saúde mental materna é tão urgente: “O momento em que caiu a ficha que ela não estava bem foi quando, ao preparar a mamadeira, ela adicionou vinte medidas de leite em pó em vez de apenas quatro.”

A lembrança ainda emociona Bruno, nome fictício adotado para preservar a identidade da família. Ao relembrar os primeiros meses após o nascimento do filho, ele descreve um período marcado por dúvidas, medo e um sentimento crescente de que algo não estava certo. Enquanto familiares e amigos celebravam a chegada do bebê, ele observava, silenciosamente, que a esposa parecia cada vez mais distante da realidade que a cercava.

Segundo ele, os sinais foram surgindo aos poucos. A apatia constante, a ausência de reações emocionais e a dificuldade de estabelecer conexão com o próprio filho chamavam sua atenção. O episódio da mamadeira foi apenas o momento em que uma preocupação silenciosa se transformou em certeza .”Foi difícil aceitar, mas tive que conversar com a família, mesmo sabendo que receberia uma negativa ao dizerem que meu argumento era bobagem.”

A resistência encontrada por Bruno não é incomum. Muitas vezes, alterações emocionais e comportamentais após o nascimento de um bebê são interpretadas apenas como cansaço ou adaptação à nova rotina. Enquanto isso, o sofrimento materno permanece invisível, escondido atrás de expectativas sociais que associam a maternidade exclusivamente à felicidade. Bruno conta que a esposa seguia sem demonstrar envolvimento emocional mesmo em momentos importantes para a família. Um dos episódios que mais o marcou aconteceu durante o batizado do filho. “Ela estava lá fisicamente, mas parecia não estar presente. Não reagia, não demonstrava emoção. Foi muito difícil para mim e para toda a família.”. Com o agravamento do quadro, ela precisou ser internada em um hospital psiquiátrico para receber tratamento especializado. A decisão, embora necessária, trouxe novos desafios para todos os envolvidos.

Relatos como esse ajudam a compreender por que iniciativas como o Maio Furta-Cor são tão importantes. Quanto mais informação circula, maiores são as chances de que sinais de sofrimento sejam identificados precocemente, permitindo que mães e famílias encontrem ajuda antes que a situação se agrave.

Foi exatamente essa reflexão que permeou a roda de conversa realizada durante o encontro. Sentadas no chão, muitas acompanhadas pelos próprios filhos, as participantes compartilharam experiências, medos, dúvidas e expectativas. Entre os relatos, surgiu uma percepção comum: a maternidade real é muito diferente da imagem frequentemente construída pela mídia, pelas redes sociais e até mesmo pelas tradições familiares.

Durante o encontro, a psicóloga Jennifer Andrade, psicóloga e uma das responsáveis pela iniciativa, destacou a importância da existência de ambientes que acolham verdadeiramente a experiência materna. “Importante nós estarmos em lugares que possam abraçar a nossa maternidade. Onde eles possam se sujar, fazer baguncinha…”. Sua fala resume um dos principais objetivos do movimento: criar espaços onde mães possam existir sem julgamentos, reconhecendo que a maternidade não é feita apenas de momentos felizes, mas também de desafios, inseguranças e aprendizados.

Essa reflexão encontrou eco nas histórias compartilhadas pelas participantes. A empresária Lariana Aquino falou sobre como a maternidade impactou profundamente sua dinâmica familiar e conjugal. “Meu relacionamento foi indo embora porque nós ficamos vivendo muito a maternidade. Eu tinha muito medo de deixar a minha filha sozinha. Ficávamos vivendo somente para os meninos.” Seu relato evidencia uma realidade comum entre muitas famílias. O nascimento de um filho transforma prioridades, reorganiza rotinas e exige adaptações constantes. Quando não há apoio adequado, a sobrecarga emocional pode afetar não apenas a mãe, mas toda a estrutura familiar.

A pesquisadora Amanda Melo trouxe uma perspectiva que atravessa gerações. Para ela, discutir saúde mental materna também significa compreender as histórias que vieram antes. “Esses momentos são essenciais porque nós vivemos uma maternidade diferente da das nossas mães. Eu tive uma mãe muito ausente porque a mãe dela também foi muito negligenciada. Um dia ela me mostrou uma foto de quando era criança e eu chorei muito, porque queria muito ter podido cuidar dela.” Sua fala revela como muitas mulheres carregam marcas herdadas de experiências familiares anteriores e como a maternidade pode despertar reflexões profundas sobre cuidado, afeto e reparação emocional.

Roda de conversa com Jennifer Araújo, psicóloga.

Já para Pamela Araújo, encontro representou a força transformadora das redes de apoio. “Aqui nós temos essa rede de mães que nos acolhe e está sendo maravilhoso poder viver esse momento.”.

Talvez seja justamente essa a principal mensagem deixada pelo encontro. A maternidade não precisa — e não deveria — ser atravessada em silêncio. Quando mães encontram espaços seguros para compartilhar suas vivências, elas percebem que seus medos não são exclusivos, que suas dúvidas não são sinais de fracasso e que pedir ajuda não representa fraqueza.

O encontro promovido pelo Maio Furta-Cor em Belém demonstrou que cuidar da saúde mental materna não é uma responsabilidade exclusiva das mães. É uma tarefa que envolve parceiros, familiares, profissionais de saúde, instituições e toda a sociedade. Afinal, quando uma mulher recebe apoio emocional, acolhimento e informação, ela encontra mais recursos para atravessar os desafios da maternidade de forma saudável.

A história de Bruno evidencia o quanto o sofrimento materno pode passar despercebido quando falta conhecimento. Os relatos compartilhados durante a roda de conversa mostram que muitas outras mulheres enfrentam desafios semelhantes, ainda que em intensidades diferentes. E todos eles apontam para uma mesma direção: a saúde mental materna importa.

Importa para as mães. Importa para os bebês. Importa para os pais. Importa para toda a família.

Porque nenhuma mulher deveria sentir que precisa carregar sozinha o peso de maternar. E nenhuma mãe deveria atravessar seus momentos mais difíceis acreditando que está sozinha.

O conhecimento gera consciência. A consciência gera acolhimento. E o acolhimento tem o poder de transformar vidas.

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