Por que as Águias não levaram Frodo e o Anel até a Montanha da Perdição?
Uma das perguntas mais antigas entre fãs de O Senhor dos Anéis tem explicações na própria lógica da missão de Frodo — e War in the North ajuda a mostrar por que voar até Mordor seria arriscado
Se as Grandes Águias conseguiram resgatar Gandalf, participaram de batalhas e, no fim de O Senhor dos Anéis, chegaram até Mordor para salvar Frodo e Sam, por que elas simplesmente não levaram Frodo e o Anel diretamente até a Montanha da Perdição?
A pergunta acompanha a obra de J.R.R. Tolkien há décadas e costuma aparecer como um suposto “furo” na história. Mas, quando a missão da Sociedade do Anel é analisada dentro da lógica da Terra-média, a viagem aérea apresentaria um problema fundamental: Frodo precisava chegar a Mordor sem que Sauron percebesse o verdadeiro plano.
Esse era o ponto central da estratégia.
A missão não dependia de força militar. Dependia de segredo.
SAURON NÃO PODIA DESCOBRIR O PLANO
Sauron sabia que o Um Anel havia sido encontrado, mas não esperava que seus inimigos tentassem destruí-lo. Sua preocupação era que alguém poderoso tomasse o Anel e tentasse usá-lo contra ele.
Foi justamente essa interpretação equivocada que abriu uma possibilidade para Frodo.
Um pequeno hobbit atravessando a Terra-média a pé poderia passar despercebido. Um grupo de Grandes Águias voando diretamente em direção a Mordor seria algo completamente diferente.
As Águias são enormes e visíveis. Uma aproximação aérea em direção ao coração do território de Sauron poderia revelar imediatamente que algo fora do comum estava acontecendo. A missão deixaria de ser uma infiltração secreta e se transformaria em uma tentativa direta de atravessar as defesas do inimigo.
A importância da furtividade para a missão é compatível com as próprias observações de Tolkien sobre o uso das Águias na narrativa. Ao comentar adaptações de sua obra, o escritor afirmou que elas deveriam ser usadas com cautela, chamando-as de uma “máquina” narrativa perigosa.
E HAVIA ALGO ESPERANDO NO CÉU
Mordor não estava desprotegida contra ameaças aéreas.
Os Nazgûl possuíam Bestas Aladas, criaturas utilizadas pelos Espectros do Anel durante a guerra. Isso significa que uma Águia carregando Frodo não teria simplesmente um caminho livre até a Montanha da Perdição.
Caso a aproximação fosse detectada, os Nazgûl poderiam ser enviados para interceptá-la.
E existe um detalhe importante: Frodo estaria levando justamente aquilo que Sauron mais queria recuperar.
Nesse cenário, uma batalha aérea não precisaria terminar com a morte de Frodo para provocar uma catástrofe. Bastaria derrubar a Águia, separar Frodo do grupo ou fazer com que o Anel caísse em território controlado por Sauron.
A velocidade das Águias diminuiria o tempo da viagem, mas aumentaria enormemente as consequências de uma única interceptação.
WAR IN THE NORTH MOSTRA QUE AS ÁGUIAS NÃO SÃO INVENCÍVEIS
É nesse ponto que The Lord of the Rings: War in the North oferece um exemplo especialmente interessante.
O jogo apresenta Beleram, uma Grande Águia que auxilia os protagonistas. Ele é encontrado acorrentado em Fornost depois de ser capturado pelos inimigos.
Mas há um detalhe essencial: Beleram não foi simplesmente vencido por alguns orcs enquanto estava no chão.
Segundo a história do jogo, ele estava realizando uma missão quando foi derrubado por máquinas de cerco e feiticeiros orcs. Depois disso, acabou capturado. Os protagonistas precisam destruir as armas que ameaçam a Águia para que ela possa voltar a operar com segurança na região.
Dentro da lógica apresentada por War in the North, a situação ajuda a responder à velha pergunta dos fãs.
Se armas de cerco e feiticeiros no Norte conseguiram derrubar uma Grande Águia, atravessar o espaço aéreo de Mordor — território diretamente controlado por Sauron e protegido por suas forças — não seria uma viagem sem riscos.
E Frodo estaria sentado sobre ela com o Anel.
AS ÁGUIAS TAMBÉM NÃO SÃO MONTARIAS DE GANDALF
Outro ponto frequentemente esquecido é a própria natureza das Grandes Águias.
Elas não funcionam como cavalos gigantes à disposição de Gandalf.
Na obra de Tolkien, as Águias são criaturas inteligentes, capazes de conversar, tomar decisões e agir segundo sua própria vontade. Gwaihir ajuda Gandalf em momentos específicos, mas isso não significa que o mago tenha autoridade para ordenar que as Águias transportem o Anel para dentro de Mordor.
O próprio War in the North trabalha com essa independência ao transformar Beleram em aliado dos protagonistas, e não simplesmente em uma montaria disponível permanentemente. A presença das Águias na campanha também mostra que elas enfrentam seus próprios inimigos e participam da guerra segundo suas circunstâncias.
“MAS ELAS FORAM ATÉ MORDOR NO FINAL”
É justamente o que acontece no final da história que torna a discussão ainda mais interessante.
As Águias aparecem na batalha diante do Portão Negro e depois resgatam Frodo e Sam após a destruição do Anel.
Mas naquele momento tudo havia mudado.
O Anel já tinha sido destruído.
Sauron havia sido derrotado.
Os Nazgûl haviam sido eliminados com a queda de seu mestre.
A estrutura de comando de Mordor havia entrado em colapso.
As Águias já não estavam tentando entrar secretamente em um reino totalmente controlado por Sauron carregando o objeto do qual dependia todo o poder do inimigo. Elas estavam entrando depois que esse sistema de defesa havia desmoronado.
Por isso, o resgate final não demonstra necessariamente que seria possível realizar a mesma viagem no início da missão. São situações militares completamente diferentes. Em O Retorno do Rei, as Águias chegam durante a batalha final e participam dos acontecimentos que se seguem à destruição do Anel.
ENTÃO POR QUE FRODO PRECISOU IR A PÉ?
Porque a maior vantagem de Frodo era justamente parecer incapaz de fazer aquilo que estava tentando fazer.
Sauron procurava poder. Esperava exércitos, grandes guerreiros e adversários interessados em usar o Anel. O plano de enviá-lo nas mãos de um hobbit explorava exatamente esse ponto cego.
Uma Águia gigante avançando pelo céu de Mordor eliminaria boa parte dessa vantagem.
Voar seria mais rápido.
Não necessariamente seria mais seguro.
A pé, Frodo e Sam puderam avançar escondidos, entrar em Mordor e chegar à Montanha da Perdição enquanto Sauron concentrava sua atenção em outros lugares.
Esse é também o motivo pelo qual a última estratégia de Aragorn e Gandalf funciona: o exército marcha até o Portão Negro justamente para fazer Sauron olhar para eles enquanto Frodo se aproxima da Montanha.
Era uma enorme distração para proteger uma missão secreta.
NÃO EXISTE UMA RESPOSTA ÚNICA ESCRITA POR TOLKIEN
Há, porém, uma diferença importante entre explicar a lógica da história e afirmar que Tolkien escreveu uma resposta definitiva para a questão.
Nos livros, o Conselho de Elrond discute várias alternativas para o Um Anel, mas não há uma longa cena em que alguém pergunta especificamente: “Por que não usamos as Águias para levar Frodo até Mordor?”. A ausência dessa discussão é justamente um dos motivos pelos quais o assunto continua sendo debatido entre os fãs.
War in the North é interessante porque aborda uma pergunta que se tornou famosa entre o público e, principalmente, porque a própria história de Beleram demonstra que as Águias podem ser abatidas e capturadas.
O jogo, entretanto, é uma adaptação posterior e não substitui o que Tolkien escreveu.
A resposta mais consistente surge da combinação dos elementos existentes na própria história: a missão precisava permanecer secreta, Mordor tinha meios para reagir a uma incursão aérea, os Nazgûl representavam uma ameaça no céu, as Águias não eram subordinadas a Gandalf e uma única derrota durante o voo poderia entregar o Um Anel diretamente ao inimigo.
No fim, a caminhada aparentemente mais difícil era justamente o plano que Sauron menos esperava.
Com informações: TEC Mundo.
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