O Concreto que Esquenta a Metrópole: Como Belém está se Tornando uma Ilha de Calor

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Belém, a nossa famosa capital paraense, sempre foi conhecida por seu clima equatorial, sua umidade marcante e aquela brisa característica que sopra da Baía do Guajará. No entanto, quem vive ou visita a cidade nas últimas décadas tem percebido uma mudança incômoda: o calor parece cada vez mais intenso e abafado.

Esse fenômeno não é apenas uma impressão passageira. Ele tem nome científico e uma causa bem clara: são as ilhas de calor urbanas, um efeito direto do crescimento urbano desordenado que vem substituindo o verde da nossa floresta pelo cinza do concreto e do asfalto.

Em entrevista ao jornal Beira do Rio (da Universidade Federal do Pará – UFPA), o professor Edivaldo Afonso de Oliveira Serrão, da Faculdade de Meteorologia do Instituto de Geociências (IG/UFPA), explicou detalhadamente o que está acontecendo com o clima da capital e como o planejamento da cidade precisa mudar urgentemente.


O que é uma Ilha de Calor e por que ela se forma?

A ilha de calor urbana ocorre quando determinadas áreas da cidade registram temperaturas significativamente mais altas do que as áreas vizinhas que possuem mais vegetação ou são menos urbanizadas.

Segundo o professor Edivaldo Serrão, o processo começa com a mudança no uso e na cobertura da terra. Quando a vegetação é retirada para dar lugar a prédios, ruas e avenidas:

  1. Reduz-se a evapotranspiração: Em áreas verdes, as plantas e o solo absorvem a energia solar e a utilizam para transferir água para a atmosfera (evapotranspiração), o que resfria naturalmente o ambiente.
  2. Aumenta o calor sensível: Sem a vegetação, superfícies como o concreto e o asfalto absorvem a radiação solar. Em vez de usar essa energia para evaporar água, elas a convertem em “calor sensível” — ou seja, calor que nós sentimos na pele.
  3. Armazenamento térmico: Essas superfícies artificiais retêm o calor durante o dia e continuam a liberá-lo lentamente ao longo da noite, impedindo que a cidade refresque mesmo após o pôr do sol.

O “Fator Belém”: Umidade e a Época mais Crítica

Embora o problema afete várias metrópoles, em Belém ele ganha contornos específicos. O professor explica que o fenômeno das ilhas de calor na capital paraense se intensifica principalmente entre os meses de junho e novembro.

Esse período coincide com a época de menor ocorrência de chuvas na região. Com menos nuvens no céu, a radiação solar incide diretamente e com mais força sobre as superfícies impermeáveis da cidade, elevando ainda mais as temperaturas.

Além disso, Belém possui um complicador natural: a alta umidade do ar. O professor esclarece um ponto fundamental sobre o nosso bem-estar:

Em ambientes quentes e úmidos, como Belém, o organismo tem maior dificuldade para perder calor por meio da evaporação do suor. Por isso, uma temperatura que poderia ser suportável em um ambiente seco pode gerar uma sensação de calor muito maior em Belém.”

O lado positivo: A Baía do Guajará como aliada

Nem tudo são notícias ruins. Belém conta com uma defesa natural importante: a proximidade com a Baía do Guajará. Essa localização privilegiada favorece a atuação de circulações locais de vento, como as brisas marinhas, que ajudam a redistribuir o calor e a umidade, amenizando o abafamento em algumas áreas. Porém, o avanço do concreto sem planejamento pode sufocar até mesmo esse alívio natural.


Muito além do termômetro: Alagamentos e Mudanças nas Chuvas

Os impactos das ilhas de calor e da urbanização desenfreada vão muito além do desconforto térmico. Eles mexem com a dinâmica das águas na cidade de duas formas principais:

  • Alteração no padrão de chuvas: O contraste térmico e de pressão entre as áreas superaquecidas da cidade e as zonas mais frias influencia a circulação do vento. Isso pode alterar o comportamento e a distribuição das nuvens de chuva na Região Metropolitana, modificando onde e como a água cai.
  • A crise dos alagamentos: Com o solo completamente impermeabilizado por asfalto e concreto, a água da chuva não consegue infiltrar na terra. Ela escoa rapidamente pela superfície em direção às áreas mais baixas. Como Belém é uma cidade plana (baixa declividade) e sofre forte influência do movimento das marés, o escoamento fica travado, resultando nos frequentes alagamentos que paralisam a capital.

O meteorologista reforça que a urbanização em si não “cria” tempestades extremas ou ondas de calor globais, mas a falta de planejamento local maximiza seus efeitos e expõe a população a riscos muito maiores.


A Solução: Integrar as Infraestruturas Verde, Azul e Cinza

Para o professor Edivaldo Serrão, a solução para Belém não está em simplesmente construir canais de concreto cada vez maiores para escoar a água o mais rápido possível — a chamada infraestrutura cinza. A capital precisa migrar para um modelo integrado que una três pilares:

  • Infraestrutura Cinza: Sistemas de engenharia tradicionais (bueiros, canais).
  • Infraestrutura Verde: Ampliação drástica da arborização urbana, criação de parques lineares, preservação de áreas de várzea e implantação de “jardins de chuva” (areas vegetadas projetadas para reter água).
  • Infraestrutura Azul: Preservação e recuperação de corpos d’água e canais naturais da cidade.

Essas soluções baseadas na natureza ajudam a reter a água, facilitam a infiltração no solo, reduzem a velocidade das enxurradas e, ao mesmo tempo, combatem as ilhas de calor ao devolver a evapotranspiração para o ecossistema urbano.

“O planejamento urbano precisa considerar o clima como um componente fundamental. Devemos pensar não apenas em construir sistemas de drenagem para retirar rapidamente a água da cidade, mas também em permitir que a cidade absorva, retenha e utilize parte dessa água, ao mesmo tempo em que ampliamos as áreas verdes”, conclui Serrão.

Com informações: ASCOM UFPA


Sobre o especialista:
Edivaldo Afonso de Oliveira Serrão é professor da Faculdade de Meteorologia do Instituto de Geociências da UFPA, doutor em Meteorologia pela UFCG, com especialidade em modelagem hidrológica, mudanças climáticas e transformações no uso da terra.

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