A habilidade que nenhuma tela ensina: como preparar crianças para viver no mundo digital

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Por Camila Eneyla Costa

Antes de aprender a programar, criar um jogo ou conversar com uma inteligência artificial, uma criança precisa desenvolver uma habilidade que nenhuma tecnologia consegue oferecer pronta: a capacidade de pensar antes de clicar. Em um cotidiano marcado por celulares, vídeos curtos, jogos e uma avalanche de informações, professores e educadores começam a perceber que o desafio da escola já não é apenas ensinar conteúdos, mas ajudar crianças e adolescentes a compreender o mundo digital que também participa da formação deles.

Na sala de aula, essa transformação aparece em situações aparentemente simples. Atividades que exigem alguns minutos de concentração, uma leitura mais demorada ou mesmo o ato de copiar um conteúdo podem se tornar difíceis para estudantes acostumados à rapidez das telas. A professora Railena de Sousa Gama, 52 anos, que há 23 atua entre a docência e a direção escolar, percebe essa mudança no cotidiano e aponta a concentração como um dos principais obstáculos. Segundo ela, muitos alunos apresentam dificuldade justamente quando precisam lidar com tarefas que exigem “paciência, dedicação e concentração por mais tempo”, algo que acaba interferindo diretamente no processo de aprendizagem.

O comportamento também revela uma relação diferente com o esforço. Fotografar uma página parece mais prático do que copiar o conteúdo; buscar uma resposta na internet parece mais rápido do que ler algumas páginas. Railena observa que alguns estudantes já preferem tirar fotos dos materiais ou pesquisar diretamente em ferramentas digitais, muitas vezes sem se preocupar em ler aquilo que encontraram. A tecnologia, nesse caso, deixa de ser apenas uma ferramenta de apoio e passa a oferecer um caminho mais curto — e nem sempre mais proveitoso — para chegar à resposta.

O resultado é uma disputa diária pela atenção. De um lado, estão os estímulos rápidos das telas; do outro, uma escola que precisa ensinar leitura, escrita, interpretação e pensamento crítico, habilidades que exigem tempo para amadurecer. Para enfrentar esse cenário, os professores têm diversificado as estratégias em sala, utilizando jogos educativos, músicas, debates, trabalhos em grupo, atividades práticas e dinâmicas interativas. Ainda assim, Railena reconhece que a mudança não é simples, especialmente diante de turmas numerosas, tempo reduzido de aula e da necessidade de formação continuada dos próprios educadores para acompanhar as transformações tecnológicas.

Mas retirar o celular da sala de aula não significa necessariamente resolver o problema. A questão permanece quando o estudante volta para casa e encontra novamente a tela nas mãos. Por isso, para Railena, estabelecer limites é apenas uma parte da resposta. A escola precisa também ensinar o aluno a compreender a tecnologia e fazer escolhas diante dela, desenvolvendo “autonomia, pensamento crítico e a capacidade de compreender quando, como e para que utilizar os recursos digitais”. O objetivo, explica a professora, é formar estudantes conscientes, e não apenas jovens que obedecem a uma proibição.

É justamente nessa diferença entre usar tecnologia e compreender tecnologia que entra outra dimensão da educação digital. Silvia Nascimento, 45 anos, gestora educacional da Happy – Escola de Tecnologia e Desenvolvimento de Habilidades, chama atenção para uma distinção que muitas vezes passa despercebida: saber operar um equipamento não significa necessariamente saber lidar com tudo o que existe dentro dele.

Para ela, a alfabetização digital está relacionada ao domínio básico das ferramentas — saber ligar um equipamento, ler e digitar, por exemplo. O letramento digital começa depois disso, quando a criança passa a questionar o que encontra na internet. Ela resume essa diferença ao lembrar que é preciso saber “se o que você leu está correto e seguro para compartilhar”. A habilidade deixa de ser apenas técnica e passa a envolver julgamento, responsabilidade e consciência sobre as consequências de uma ação digital.

Essa mudança de perspectiva é importante porque crianças e adolescentes nunca tiveram acesso a tanta informação com tanta facilidade. O problema já não é apenas conseguir encontrar uma resposta, mas saber se aquela resposta é verdadeira, de onde veio e o que fazer com ela. Nesse ambiente, ensinar a pesquisar pode ser tão importante quanto ensinar a desconfiar.

A responsabilidade, porém, não pertence somente à escola. Antes mesmo de aprenderem a ler e escrever, muitas crianças já convivem com celulares, tablets, vídeos e jogos dentro de casa. É nesse espaço que começam a construir hábitos que depois chegam à sala de aula. Por isso, Railena considera fundamental a participação das famílias e destaca que a escola procura conversar com os responsáveis durante reuniões e também no período de matrícula, quando são apresentadas as regras relacionadas ao uso dos aparelhos.

A parceria entre escola e família se torna ainda mais necessária porque o problema não termina quando o aluno guarda o celular durante a aula. Se a criança não aprende a administrar a própria relação com a tecnologia, a proibição pode apenas adiar a questão. É por isso que Railena defende que a escola não deve apenas restringir o acesso, mas criar condições para que os estudantes aprendam a utilizar os recursos digitais de maneira responsável.

Ao mesmo tempo, seria simplista transformar a tecnologia em vilã. A mesma ferramenta que distrai também pode ensinar. Quando existe planejamento e objetivo pedagógico, recursos digitais podem ampliar pesquisas, facilitar o acesso à informação e tornar determinados conteúdos mais compreensíveis. Para Railena, o caminho está justamente nesse equilíbrio: “A tecnologia deve complementar o processo de ensino e aprendizagem”, ela completa que isso não pode substituir experiências como leitura, escrita, desenho, atividades manuais, brincadeiras, debates e interação presencial.

A diferença pode estar no papel que a criança ocupa diante da tela. Consumir passivamente um fluxo interminável de conteúdos é uma experiência diferente de utilizar a tecnologia para criar, pesquisar, resolver um problema ou desenvolver uma ideia. Uma criança que aprende a construir um jogo, por exemplo, pode começar a enxergar o universo digital não apenas como algo que entretém, mas como algo que também pode ser criado e transformado.

Essa mudança exige que a própria escola acompanhe a transformação. Para Railena, é necessário investir em metodologias mais dinâmicas e participativas, sem abandonar a leitura, a escrita e o conhecimento científico. Os professores também precisam de formação para utilizar as novas ferramentas de maneira crítica e pedagógica, porque não faz sentido pedir que os estudantes desenvolvam uma relação consciente com a tecnologia se os adultos responsáveis por orientá-los não tiverem condições de compreender esse mesmo universo.

No fim, o que está em jogo é maior do que o uso ou não do celular. É a formação de uma geração que terá de conviver cada vez mais com algoritmos, inteligência artificial, jogos, redes sociais e ferramentas capazes de responder quase imediatamente a qualquer pergunta. Nesse cenário, habilidades como concentração, criatividade, comunicação e resolução de problemas se tornam tão importantes quanto o domínio das próprias ferramentas.

Railena acredita que esse equilíbrio precisa incluir também aquilo que não acontece diante de uma tela: respeito, empatia, convivência e capacidade de dialogar. São competências que, segundo ela, precisam ser fortalecidas para que os estudantes consigam utilizar a tecnologia sem perder a capacidade de estabelecer relações humanas.

Talvez seja justamente aí que esteja a resposta para a pergunta que atravessa essa história: se fosse possível ensinar apenas uma habilidade para uma criança enfrentar o mundo digital, talvez fosse aprender a fazer escolhas. Saber quando pesquisar, quando desconfiar, quando desligar, quando conversar com alguém e quando pensar por conta própria. Porque as tecnologias podem oferecer respostas cada vez mais rápidas, mas ainda cabe ao ser humano decidir quais perguntas realmente importam.

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