Estudo identifica sinais de calor extremo na Amazônia com até sete meses de antecedência

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Pesquisa com participação do Inpe e de instituições australianas identifica relações entre o aquecimento dos oceanos e temperaturas extremas na região

Um estudo científico publicado na revista Earth’s Future identificou padrões climáticos que podem ajudar a antecipar períodos de calor extremo na Amazônia com até sete meses de antecedência. A pesquisa, que reúne cientistas brasileiros e australianos, aponta relações entre as condições dos oceanos Pacífico e Atlântico e a ocorrência de temperaturas excepcionalmente elevadas na região. Os resultados podem contribuir para o aprimoramento de sistemas de monitoramento e previsão climática, permitindo identificar períodos de maior risco para a floresta e as populações amazônicas.

Intitulado Climate-Mode Precursors and the Predictability of Amazon Hot and Dry Extremes (Precursores dos modos climáticos e a previsibilidade de extremos de calor e seca na Amazônia, em tradução livre), o trabalho foi publicado em 27 de agosto de 2026. A pesquisa conta com a participação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW Sydney), da Universidade Nacional Australiana e da Universidade de Melbourne. O estudo analisou dados de temperatura, precipitação e variabilidade climática entre 1950 e 2023, considerando seis regiões climáticas da Bacia Amazônica.

A investigação buscou compreender se alterações nos padrões climáticos dos oceanos poderiam funcionar como sinais antecipados de eventos extremos na Amazônia. Para isso, os pesquisadores utilizaram métodos estatísticos e técnicas de aprendizado de máquina, avaliando as relações entre os fenômenos oceânico-atmosféricos e as anomalias de temperatura e chuva.

Os resultados apontaram que, entre março e maio, os extremos de calor em grande parte da Amazônia apresentaram associação com condições climáticas observadas até sete meses antes. Esse intervalo representa uma oportunidade para ampliar o horizonte de monitoramento dos riscos climáticos, embora não signifique que seja possível prever com precisão a ocorrência de cada evento com tanta antecedência.

A relação entre as condições dos oceanos e o calor amazônico também varia conforme a época do ano e a localização. Entre setembro e novembro, os episódios de temperaturas extremas estiveram associados principalmente ao aquecimento prévio do Atlântico Norte tropical. Já entre dezembro e fevereiro, o aquecimento mais recente do Atlântico Sul tropical apresentou relação com o calor em diferentes áreas da bacia. Sinais associados ao El Niño também foram identificados no sul da Amazônia e na região de transição entre os Andes e a Bacia Amazônica.

O El Niño é um fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial, capaz de alterar a circulação atmosférica e os padrões de chuva em diferentes regiões do planeta. Na Amazônia, essas mudanças podem reduzir a formação de nuvens e a precipitação em determinadas áreas, favorecendo a entrada de radiação solar e diminuindo a disponibilidade de água para o resfriamento do ambiente por evaporação.

A influência dos oceanos, entretanto, não se manifesta da mesma maneira em toda a região. A diversidade de regimes de chuva, vegetação, relevo e ciclos sazonais da Amazônia faz com que os sinais climáticos e seus efeitos variem de acordo com a área analisada e o período do ano.

Além dos extremos de temperatura, o estudo investigou os chamados eventos compostos de calor e seca, caracterizados pela ocorrência simultânea de temperaturas muito elevadas e baixos índices de precipitação. Esses episódios representam um risco significativo para os ecossistemas amazônicos, pois podem aumentar a vulnerabilidade da vegetação, favorecer incêndios florestais e comprometer a disponibilidade de água.

Os impactos também alcançam as populações humanas, com possíveis consequências para a saúde, a segurança alimentar e as atividades econômicas que dependem dos recursos naturais. Em períodos de calor intenso e estiagem, a floresta também pode ter sua capacidade de absorver dióxido de carbono da atmosfera comprometida, ampliando os efeitos das mudanças climáticas.

Embora os resultados indiquem potencial para antecipar condições favoráveis à ocorrência de calor extremo, os pesquisadores ressaltam que a identificação dessas relações não equivale à validação de um sistema operacional de previsão. Para transformar os sinais encontrados em ferramentas de alerta climático, serão necessários novos estudos que incorporem modelos de previsão em funcionamento e outras variáveis, como a umidade do solo, as condições da vegetação e a circulação atmosférica regional.

No caso dos eventos que combinam calor extremo e seca, a pesquisa identificou que a capacidade de previsão depende principalmente do El Niño e varia conforme a estação. O desempenho foi mais elevado entre dezembro e fevereiro, especialmente nas terras altas do oeste da Guiana, e entre março e maio, na porção centro-leste da Amazônia. Já entre junho e agosto, a capacidade preditiva foi menor. Em geral, previsões mais consistentes desses eventos compostos exigiram ao menos um índice climático observado com um mês de antecedência.

A pesquisa amplia, assim, o conhecimento sobre a influência da variabilidade climática dos oceanos nos extremos de temperatura da Amazônia. Ao identificar períodos e regiões em que esses sinais podem ser observados antecipadamente, o estudo oferece subsídios para o desenvolvimento de estratégias de monitoramento e preparação diante de eventos de calor intenso, um desafio crescente para a conservação da floresta e a proteção das populações amazônicas.

Fonte: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e artigo científico publicado na revista Earth’s Future.

Artigo científico: https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1029/2026EF008496

Matéria do Inpe: https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/novo-estudo-pode-auxiliar-a-previsao-de-calor-extremo-na-amazonia

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