
Vice de Daniel aproxima chapa do bolsonarismo no Pará
A escolha de Ellayne D’Almeida (PL) para vice de Daniel Santos (Podemos) vai além do preenchimento de uma vaga na chapa ao Governo do Pará. A composição consolida a aliança entre Podemos e PL e cria uma conexão objetiva entre a candidatura estadual e o campo político liderado por Flávio Bolsonaro. Mais do que um detalhe partidário, a vice ajuda a revelar qual espaço político Daniel pretende ocupar nas eleições de 2026.
Ellayne chega à chapa carregando uma credencial que dá peso a essa interpretação. Antes de ser anunciada como candidata a vice-governadora, ela assumiu a coordenação da campanha de Flávio Bolsonaro na região da Transamazônica. A informação foi divulgada após uma agenda da então pré-candidata com lideranças do PL em Brasília. Portanto, a relação com o grupo de Flávio não se limita a fotografias, manifestações de apoio ou proximidade em redes sociais: houve participação formal em sua articulação política regional.
Esse dado torna a escolha especialmente relevante. Daniel Santos não trouxe para a chapa apenas uma filiada ao PL, mas uma liderança que já atuava diretamente na organização política de Flávio Bolsonaro no Pará. O movimento aproxima dois projetos eleitorais: de um lado, Daniel busca ampliar sua presença no eleitorado conservador; de outro, o PL ganha posição privilegiada em uma candidatura ao governo estadual. A vice, nesse sentido, funciona como ponto de convergência entre interesses regionais e nacionais.
Mas reduzir Ellayne exclusivamente ao bolsonarismo também produziria uma análise incompleta. Natural de Itaituba, ela construiu sua atuação pública em torno de pautas relacionadas ao agronegócio, à mineração, ao garimpo legal, aos valores conservadores e às demandas do interior paraense. Ao anunciá-la, Daniel destacou justamente sua ligação com o chamado setor produtivo. A chapa procura, assim, combinar a força eleitoral do ex-prefeito de Ananindeua com uma representante do sudoeste do estado e de segmentos econômicos com influência naquela região.
Há ainda uma dimensão territorial nessa escolha. Daniel tem sua principal trajetória política vinculada a Ananindeua e à Região Metropolitana de Belém, enquanto Ellayne oferece à chapa uma ponte com o Tapajós e a Transamazônica. Politicamente, isso permite ampliar o discurso para além da capital e de seu entorno, aproximando a candidatura de produtores rurais, empresários, trabalhadores da mineração e grupos conservadores do interior.
É justamente nessa combinação que a presença de Flávio Bolsonaro ganha maior importância. Ellayne pode entregar simultaneamente partido, território, identidade ideológica e conexão nacional à chapa. Sua presença permite que Daniel dialogue com o eleitorado bolsonarista sem precisar transformar sua candidatura exclusivamente em uma extensão do PL. Para o partido, por sua vez, ocupar a vice significa participar diretamente de um projeto de poder estadual liderado por outra legenda.
Isso não significa, contudo, que seja possível afirmar, com as informações públicas disponíveis, que Flávio Bolsonaro “dá as cartas” na candidatura de Daniel Santos ou que tenha pessoalmente imposto Ellayne como vice. O que os fatos permitem afirmar é que existe uma ligação política concreta e relevante, demonstrada pela filiação partidária, pela proximidade com lideranças bolsonaristas e, principalmente, pela atuação de Ellayne na coordenação regional da campanha de Flávio. A conclusão de que ela seria uma “apadrinhada” pessoal do senador exige evidências adicionais sobre o processo interno de escolha.
No tabuleiro eleitoral paraense, portanto, a escolha de Ellayne dificilmente pode ser considerada neutra. Daniel Santos fez uma opção que aproxima sua candidatura do PL e torna muito mais visível sua interlocução com o bolsonarismo, ao mesmo tempo em que tenta conquistar espaço no interior e no setor produtivo. Para o eleitor, a composição oferece uma informação política importante: uma vice não serve apenas para completar uma chapa. Muitas vezes, ela revela as alianças, os compromissos e a direção que um projeto de poder pretende seguir.
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