Enquanto o mundo aplaude a Amazônia, brasileiros zombam da própria riqueza: as lições da Bicharada do Juaba na COP30

Em meio à abertura da COP30, o grupo cultural de Cametá transformou o palco em um manifesto pela vida e pela natureza, mas acabou alvo de críticas nas redes sociais, um reflexo doloroso de como muitos ainda preferem ridicularizar o que não compreendem, em vez de se orgulhar do Brasil que resiste e ensina o valor de cuidar do planeta.

Por Camila Eneyla Costa

No dia 10 de novembro de 2025, durante a abertura da COP30 em Belém (PA), o grupo Bicharada do Juaba, da comunidade de Juaba, em Cametá, subiu ao palco da Zona Verde vestindo fantasias que representavam animais típicos da fauna amazônica  como onças, macacos, jacarés e garças, para expressar a riqueza da natureza local e a necessidade de preservação. O espetáculo encantou o público e emocionou quem entende o poder simbólico da Amazônia. Mas também despertou críticas nas redes sociais, revelando um retrato preocupante do quanto ainda estamos distantes de compreender a importância de conhecer e valorizar nossa própria biodiversidade.

A apresentação da Bicharada do Juaba não foi apenas um ato artístico. Foi um lembrete da grandiosidade e da diversidade da fauna brasileira, um convite à reconexão com o que somos e com o que temos de mais precioso: a vida pulsante da natureza. Cada animal representado na dança simboliza um elo da teia natural que sustenta a existência na floresta e no planeta. Quando deixamos de valorizar isso, tratamos a natureza como mero cenário e esquecemos que dela dependemos.

A biodiversidade brasileira é reconhecida mundialmente e tem papel essencial no equilíbrio climático do planeta. Mas o valor dessa riqueza vai além do ecológico: é cultural e histórico. Povos tradicionais, ribeirinhos e indígenas convivem e aprendem com os animais, integrando seus símbolos à música, à arte e à espiritualidade. Ao levar suas fantasias à COP30, o grupo de Cametá não estava apenas “encenando”,  estava representando um modo de vida que ainda resiste, mesmo diante da indiferença urbana e globalizada.

O Brasil é o país mais rico do mundo em biodiversidade. Temos uma variedade de frutas nativas, uma imensidão de rios, uma floresta que respira pelo planeta e incontáveis plantas medicinais, muitas das quais atraem pesquisadores estrangeiros que vêm explorar nosso território. No entanto, em vez de nos orgulharmos disso, preferimos muitas vezes sentir vergonha. Vergonha do Brasil, de nossa cultura popular, da simplicidade de quem ainda vive em harmonia com a terra. E essa inversão de valores se torna evidente quando observamos as reações nas redes sociais.

Bastou a apresentação da Bicharada viralizar para que comentários irônicos e depreciativos tomassem conta da internet. Um dos exemplos mais marcantes foi o de quem afirmou sarcasticamente que o ar já estava “mais puro” depois de ver pessoas “andando de quatro fantasiadas de animais”. Essas falas revelam o quanto ainda estamos prontos para ridicularizar o que não compreendemos e o quanto perdemos a capacidade de enxergar beleza e propósito nas expressões autênticas da nossa cultura. É mais fácil apontar o dedo, rir, ironizar, do que se perguntar: o que eu estou fazendo, de fato, para ajudar o planeta?

Esse tipo de reação mostra o quanto nos tornamos uma sociedade acostumada à crítica vazia. Reclamamos da poluição, do desmatamento, das queimadas, mas continuamos consumindo de forma irresponsável e ignorando o que acontece à nossa volta. Queremos soluções, mas não queremos envolvimento. Queremos um planeta melhor, mas sem abrir mão de conforto e conveniência. É um retrato lamentável de uma geração que se sente no direito de opinar sobre tudo, mas raramente age.

Não há vergonha em ser brasileiro. Há orgulho em pertencer a uma terra tão rica, diversa e potente. Vergonhoso é não enxergar o valor dessa riqueza, é virar as costas para a natureza que nos sustenta. O Brasil deveria ser símbolo mundial de respeito à vida  e, para isso, precisamos recuperar a consciência de que nossa fauna, nossas florestas e nossos rios são tesouros vivos.

Ao invés de rir de uma fantasia de onça, deveríamos nos perguntar quantos de nós já vimos uma onça-pintada de verdade, quantos já presenciaram o voo de uma garça na beira do rio, quantos sabem o nome das espécies que vivem perto de nós. Devemos questionar o quanto estamos contribuindo para preservar esse patrimônio, seja por meio de escolhas de consumo, educação ambiental ou participação em projetos que protejam nossos biomas.

O espetáculo da Bicharada do Juaba foi mais do que uma apresentação cultural, foi um alerta. Um aviso de que, se continuarmos alimentando apenas a crítica e o desprezo, perderemos não apenas nossa fauna, mas também a nossa identidade. Conhecer os animais da fauna brasileira é conhecer a nós mesmos. E se ainda sentimos vergonha, que seja da nossa omissão, não da nossa natureza.

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