Onde a fé navega, a esperança transborda

Por Camila Eneyla.

Há um espelho d’água diante do Tribunal de Contas do Estado do Pará. Ali, onde carpas deslizam em silêncio — como orações que ninguém diz —, cem pequenos barcos de miriti flutuam, levando consigo miniaturas de promessas. É como se a fé, em forma de brinquedo, cruzasse uma baía simbólica, navegando do cotidiano rumo à graça.

Em meio ao concreto institucional, o gesto é poesia. As canoas coloridas que repousam nas águas são mais do que arte: são um rito. Um modo silencioso de celebrar a Romaria Fluvial do Círio de Nazaré com leveza, memória e fé.

Sob o tema “Onde a fé navega, a esperança transborda”, a exposição Canoas de Promesseiros chega à sua 15ª edição, reafirmando um pacto entre arte e devoção. Os brinquedos, feitos da palmeira sagrada da Amazônia, o miriti, são delicados e potentes: unem o gesto do artesão à caminhada do romeiro.

É um abraço institucional do TCE à programação do Círio“, define o conselheiro Luís Cunha, vice-presidente do Tribunal de Contas. Mas o gesto ultrapassa o protocolo. É um encontro entre mãos invisíveis: de quem faz e de quem crê.

As mãos de Manoel Miranda, 60 anos, são conhecidas entre os artesãos de Abaetetuba. Marcadas pelo tempo e pelo miriti, elas moldaram cada canoa que flutua ali. “Sinto-me realizado como artesão. Aos 60 anos, ver minha arte homenageando Nossa Senhora de Nazaré é um presente”, diz ele, com os olhos marejados, navegando mais que as palavras.

Três meses de trabalho. Vinte e três famílias envolvidas. Cada barco carrega sustento, beleza e história.

Este ano, a mostra ganhou novos marinheiros: os residentes da Fazenda Esperança, projeto da Igreja Católica que acolhe pessoas em recuperação da dependência química. Durante a Manhã dos Eleitos, cem deles, acompanhados de familiares, ajudaram a pintar os barquinhos levados pelo TCE.

Foi um momento de esperança. Um gesto simbólico e redentor“, conta Karen Lima Reis, da Diretoria da Festa de Nazaré.

Para Denise Crispino Oliveira, servidora que acompanha a exposição há oito anos, há uma beleza que se aprofunda com o tempo:

A cada edição, a exposição se torna mais significativa para o Círio de Nazaré. Ela cresce em beleza e sentido“.

Desde 2010, mais de duas mil canoas já flutuaram no espelho d’água. Ao final de cada mostra, os barcos ganham novo destino: são doados a estudantes de escolas públicas da Região Metropolitana de Belém. A arte, depois de contemplada, volta à infância — e segue navegando.

A exposição também ocupa paredes. Vinte imagens compõem a mostra fotográfica “Navegando por Memórias”, que reúne registros das edições anteriores. Inicialmente montada no Largo do Redondo, agora está aberta à visitação no Espaço Cultural Clóvis Moraes Rêgo, até 27 de outubro.

Ali perto, no largo, o artesanato segue pulsando. Uma feira reúne criadores da região. Lucilene Lima, de Ananindeua, expõe bonecas de pano que retratam personagens ribeirinhos.

É muito importante para nós, artesãos, termos essa visibilidade“, diz ela, ajeitando, com mãos de mãe, uma bonequinha vestida de fé.

No fim, o que flutua não é só o miriti. É o gesto que resiste. É a arte que sobrevive. É o Pará que reza com as mãos e oferece, a quem passa, um altar em miniatura.

Pois ali, entre as carpas e os barcos, não é apenas a fé que navega.
É a esperança que transborda.

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