
Da vivência familiar à Rede de Inclusão: A trajetória de Flávia Marçal na defesa de políticas públicas contínuas
Candidata do PSB, une experiência pessoal, produção acadêmica e gestão para defender um Estado que acompanhe pessoas com deficiência e suas famílias ao longo de toda a vida.
Por Camila Eneyla Costa
O ponto de partida: a inclusão que não vem dos livros
A trajetória de Flávia Marçal é marcada por uma dupla vivência: ser uma pessoa com deficiência e mãe de um jovem com deficiência. Essa perspectiva única moldou uma atuação que ultrapassou as barreiras do ambiente doméstico para alcançar o debate público e a formulação de políticas institucionais.
A caminhada na defesa dos direitos não começou nos gabinetes ou em teses acadêmicas, mas nas urgências da vida cotidiana. Em 2013, após o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) de seu filho, a família enfrentou os desafios comuns a milhares de brasileiros — incluindo a recusa de matrícula escolar em virtude do autismo, episódio registrado pela Assembleia Legislativa do Pará.
A resposta a esse obstáculo virou mobilização coletiva. Flávia aproximou-se de outras famílias em situações semelhantes e ajudou a fundar o Grupo Mundo Azul, movimento referência na defesa dos direitos das pessoas autistas.
Ciência, Direito e Serviço Público: a união entre teoria e prática
A mobilização social ganhou força adicional com o respaldo técnico e acadêmico de Flávia. Servidora pública há mais de duas décadas, acumula vasta experiência no ensino, pesquisa e extensão em universidades públicas de relevância, como a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e a Universidade de Brasília (UnB).
“A universidade nos traz o rigor do método e a busca por evidências. O serviço público acrescenta o pragmatismo necessário: a compreensão de que uma boa ideia só se realiza quando vira planejamento, orçamento, gestão e atendimento na ponta.”
| Dimensão da Trajetória | Contribuição para a Pauta da Inclusão |
| Vivência Pessoal | Identificação direta das barreiras diárias enfrentadas por famílias e pessoas com deficiência. |
| Formação Jurídica e Docência | Domínio da legislação e produção de conhecimento baseado em evidências. |
| Gestão Pública | Capacidade de articular secretarias, orçamentos e viabilizar redes de atendimento. |
Desafios Amazônicos: a inclusão além da existência do serviço
Atuando na área de Primeira Infância e Desenvolvimento Infantojuvenil de Belém, Flávia destaca que um dos principais desafios na Amazônia é garantir a equidade no acesso.
Nos territórios periféricos e insulares da capital paraense, a simples existência de um serviço de saúde ou educação não assegura que ele seja alcançado por quem dele necessita. As distâncias geográficas, as vias fluviais e as desigualdades socioeconômicas exigem soluções nativas. Para a gestora, a Amazônia não deve apenas adaptar modelos concebidos em outras regiões, mas sim formular políticas públicas pensadas a partir de sua própria realidade geográfica e social.
Intersetorialidade e o cuidado com os cuidadores
A atuação recente de Flávia foca nos primeiros anos de vida, momento crucial para o desenvolvimento. O município de Belém deu passos institucionais importantes:
- 2025: Criação de uma estrutura governamental específica dedicada à primeira infância.
- 2026: Instituição da Comissão Municipal da Primeira Infância, responsável por formular o Plano Municipal pela Primeira Infância.
Um dos pilares defendidos pela gestora é a intersetorialidade. Uma criança com deficiência não pode ser dividida entre secretarias isoladas; ela necessita de uma rede integrada que perpasse Saúde, Educação e Assistência Social.
Além disso, a proposta incorpora um conceito frequentemente invisibilizado: cuidar de quem cuida. A busca exaustiva por diagnósticos, laudos, terapias e vagas escolares sobrecarrega desproporcionalmente as famílias — sobretudo as mães. Portanto, políticas de renda, autonomia, suporte emocional e trabalho para cuidadores são partes indissociáveis da rede inclusiva.
Nada sobre nós sem nós: da lei à prática cotidiana
Flávia enfatiza que o Brasil possui um arcabouço legislativo avançado no que tange à proteção das pessoas com deficiência, mas aponta a lacuna entre o texto legal e a aplicação prática.
Para fechar essa lacuna, defende a participação ativa das próprias pessoas com deficiência em espaços de decisão — como conselhos municipais, universidades e instâncias de gestão. A presença nesses locais garante que perguntas cruciais, antes ignoradas por quem não vivencia as barreiras de acessibilidade, sejam feitas no momento da elaboração dos projetos.
Por uma rede contínua e permanente
A proposta central defendida por Flávia Marçal é a transição de um modelo reativo para um modelo de acompanhamento contínuo. Em vez de exigir que a família descubra por conta própria cada direito a ser reivindicado a cada fase da vida, o Estado deve estar estruturado como uma rede de suporte permanente.
Ao unir o conhecimento acadêmico, o rigor do Direito, a prática da gestão pública e a experiência de vida, a trajetória de Flávia aponta para um objetivo claro: fazer com que a inclusão deixe de ser um esforço heroico individual e se torne uma responsabilidade coletiva e cotidiana do Estado.
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