Manas: aplaudido no mundo, urgente no Brasil

Por Camila Eneyla Costa.

Dirigido por Marianna Brennand, o filme “Manas” já acumula mais de 28 prêmios em festivais internacionais, tem sido aplaudido mundialmente e segue como forte candidato à maior consagração do cinema: o Oscar. No filme, Dira Paes entrega uma das atuações mais impactantes de sua carreira ao interpretar a delegada Aretha, personagem que simboliza a luta em defesa das mulheres e, sobretudo, das crianças vítimas de violência sexual. Forte, sensível e determinada, a delegada representa a esperança de que a lei possa ser um refúgio diante do horror vivido por meninas como Thielli, protagonista da trama.

A narrativa acompanha Thielli desde sua infância marcada pelo abuso, retratando de forma delicada e ao mesmo tempo brutal a realidade de tantas meninas silenciadas. Em uma das cenas mais perturbadoras, ela assiste a um culto religioso no qual pastoras pregam: “Se você tem algum problema em casa, aceite-o”. A frase, aparentemente simples, ganha contornos devastadores ao ser generalizada, pois carrega em si a legitimação do silêncio e da submissão, perpetuando a dor de famílias inteiras. Outro momento de extrema força dramática surge quando o irmão mais novo de Thielli questiona a mãe: “Mãe, a Thielli também é mulher do papai?”. Nesse instante, a inocência da pergunta revela de forma crua a violência escondida dentro das paredes do lar. O olhar trocado entre mãe e filha, em um clima pesado e silencioso, expõe a paralisia gerada pelo medo: medo de ser expulsa, medo de morrer, medo de enfrentar um sistema que transforma vítimas em cúmplices involuntários.

À medida que os abusos se repetem, a obra se torna mais sensorial, traduzindo a dor em imagens e sons que ficam gravados na mente do espectador. A tentativa de fuga de Thielli não é apenas física, mas existencial: um grito desesperado de quem busca resgatar a dignidade perdida e respirar fora da prisão do silêncio. Marianna Brennand reforça essa experiência por meio de escolhas técnicas precisas, como o uso dos sons da natureza — vento, chuva, pausas de silêncio — que funcionam como testemunhas sonoras da violência. Ao mesmo tempo, músicas regionais, com letras carregadas de significados, inserem a história no contexto social da Ilha do Marajó, onde a exploração infantil é uma chaga aberta.

Entre as cenas mais emblemáticas, destaca-se o momento em que Thielli dança com uma amiga ao som do brega paraense. É um raro respiro de alegria, mas que também causa desconforto: uma menina tão jovem em ambientes inseguros, exposta a riscos e vulnerabilidades, mostra que, mesmo fora de casa, sua infância continua sequestrada por um sistema cruel que a empurra das mãos do abusador doméstico para as de outros homens que reproduzem a mesma violência.

Com a força de Dira Paes na pele da delegada Aretha, a direção sensível e contundente de Marianna Brennand e a narrativa visceral que não mascara a realidade, Manas não é apenas cinema: é denúncia, resistência e manifesto. É um filme que incomoda, que perturba e que obriga o espectador a não virar o rosto diante de uma violência que persiste silenciosa, mas que não pode mais ser ignorada.

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