
Deixa que eu olho chefe…
Por Vicente Crispino.
Quem precisa estacionar, para comprar pão, deixar as crianças na escola ou ir trabalhar, além de caçar uma vaga, ainda é extorquido. A cidade sabe, finge que não, e segue o baile: um acorde dissonante que a gente quase normalizou.
A notícia do fim de semana só escancarou o óbvio: a Guarda Municipal prendeu um flanelinha suspeito de coagir motoristas e cobrar entre R$ 30 e R$ 40 para “liberar” vaga na via pública, com o detalhe de se apresentar como “reparador de veículos”. É o retrato cru da privatização informal do que é público, e um lembrete: o medo tem preço, troco e maquininha.
O caso revela uma cena repetida com pequenas variações, o tom da voz, a promessa de “olhar o carro”.
E é justamente aí que mora o truque: quando algo acontece com o carro, um risco no para-choque, um retrovisor quebrado, um sumiço discreto, os autoproclamados “reparadores” evaporam. O recibo é verbal, a responsabilidade, etérea. Mesmo tendo recebido, sobram respostas curtas: “não vi”, “não foi aqui”, “não é comigo”. Ocobrança é certa; a garantia, nenhuma.
O poder público precisa tratar isso como política de cidade, não como incidente. Fiscalização contínua, ordenamento claro, política de estacionamento transparente, canais de denúncia que funcionem e presença do Estado, para que o espaço comum não seja loteado pela intimidação cotidiana.
Se alguém se sentir coagido, pode ligar para o 153 e denunciar. Vaga livre tem de ser livre, e ponto.
Já estava na hora de enfrentar a privatização informal das vagas e a extorsão travestida de serviço é passo firme para devolver a rua a quem é de direito: todos. É sinal de Estado presente, fiscalização ativa e respeito ao cidadão, que não deve pagar pedágio para estacionar na via pública. Que essa ação vire rotina, política de cidade, com ordenamento claro e canais que funcionem, para que o recado siga ecoando: vaga livre tem de ser livre.
Já passou da hora de Belém dizer, com todas as letras, que rua não é balcão, e que a paz de parar por cinco minutos não pode depender de coragem, muito menos de propina.






