
A intolerância vestida de batina
Por Vicente Crispino
Durante uma celebração religiosa, o padre Danilo César proferiu palavras que atravessaram o limite da fé para adentrar o terreno da intolerância. Referindo-se à morte recente da cantora Preta Gil, vítima de câncer colorretal, o religioso fez comentários sarcásticos sobre a fé de matriz africana professada por sua família. “Cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil?”, questionou, entre risos e provocações, diante de fiéis e câmeras.
A fala, além de desrespeitosa, revela o abismo que ainda separa parte da sociedade do princípio fundamental da convivência: o respeito pela dor do outro. A ironia sobre a crença alheia, feita no contexto de um luto recente, não é apenas insensível é uma agressão. Não à religião afro-brasileira apenas, mas à dignidade de uma família que ainda aprende a conviver com a ausência.
É possível imaginar o mesmo padre fazendo piada se um fiel seu morresse tragicamente? Seriam alvo de escárnio as orações feitas por ele e sua comunidade? Quando o próprio padre vier a falecer como todos nós um dia iremos, acreditará que sua fé cristã o trará de volta à vida física, ou compreenderá, enfim, que a fé é um consolo, não uma barganha com o além?
O episódio, repudiado publicamente por Bela Gil, não é isolado. Faz parte de um histórico mais amplo de discursos que se utilizam da religião como trincheira de supremacia, ignorando que o amor ao próximo, essência comum a muitas doutrinas, jamais poderia ser expresso com deboche.
Preta Gil merece luto. Sua família merece paz. E o Brasil merece líderes religiosos que compreendam que o púlpito não é lugar de pedra, mas de palavra.






