Belém sedia evento climático histórico e projeta Amazônia como centro do debate global

Carta de Belém, COP30, bioeconomia e justiça climática marcaram a I Semana do Clima.

A capital paraense encerrou, na última sexta-feira (18), a I Semana do Clima da Amazônia, evento que movimentou a cidade com mais de 30 atividades distribuídas em diferentes espaços e que posicionou a floresta amazônica como protagonista na agenda climática mundial. A programação intensa, que contou com mais de 170 painelistas e três grandes apresentações culturais, teve como ápice a leitura da Carta de Belém, documento simbólico com compromissos e propostas para uma transição sustentável e socialmente justa na região.

A abertura da semana, realizada na Estação das Docas no dia 15 de julho, contou com a presença do governador Helder Barbalho, que destacou a relevância estratégica do evento como preparação para a COP30, que será realizada em Belém em novembro. “Colocar a Amazônia no centro das discussões climáticas não é apenas um dever ambiental, mas também uma oportunidade para mostrar ao mundo o potencial de desenvolvimento sustentável da região”, afirmou. Segundo o governador, o Pará busca consolidar seu papel como articulador de políticas climáticas aliadas à geração de emprego e renda.

Entre os destaques da programação, esteve o painel “Responsabilidades e Compromissos das Empresas no Enfrentamento da Emergência Climática”, que debateu o papel do setor privado na preservação ambiental. A diretora do Fundo Vale, Patrícia Daros, defendeu que “o setor empresarial tem responsabilidade direta e capacidade concreta de implementar soluções sustentáveis de impacto”. O painel abordou metas de descarbonização, inclusão de comunidades tradicionais nas cadeias produtivas e transparência nos relatórios de sustentabilidade.

Outro momento decisivo da Semana do Clima foi a apresentação dos resultados do Mecanismo de Financiamento Amazônia Viva, iniciativa da Natura em parceria com a VERT Securitizadora e o FUNBIO. O programa concluiu seu segundo ciclo com 100% de adimplência e mais de R$ 13 milhões aplicados em crédito para cooperativas e associações extrativistas. “É a prova de que é possível unir conservação ambiental e inclusão econômica em escala relevante”, afirmou Ana Costa, vice-presidente da Natura.

Durante o evento, o Instituto Tecnológico Vale (ITV) sediou uma série de painéis voltados à bioeconomia e inovação regenerativa, em debates promovidos por entidades como o CEBDS e o Fundo Vale. Temas como financiamento sustentável, uso de tecnologias climáticas e valorização da floresta em pé dominaram as discussões. Para Estevan Sartoreli, da Dengo Chocolates, “a bioeconomia só será possível se resolvermos o problema da renda no campo. Sem dignidade para o pequeno produtor, não há floresta preservada”.

A sustentabilidade produtiva também foi defendida por Daniel Guimarães, agricultor familiar e criador do Projeto Agrosocioeconômico Ambiental, que demonstrou como sistemas agroecológicos podem ser produtivos e lucrativos. “Com apoio técnico, crédito e respeito à sabedoria das comunidades, a agricultura familiar pode ser o motor da Amazônia sustentável”, disse.

A juventude e as comunidades tradicionais também foram protagonistas nos debates. O painel “Parcerias Privadas-Comunitárias-Sociedade Civil para o Desenvolvimento Territorial” reforçou a importância do protagonismo local na definição de projetos. “Os povos da floresta precisam ser ouvidos desde o início. Não aceitamos mais projetos impostos de cima para baixo”, declarou Hilário Moraes, liderança quilombola.

A programação incluiu ainda atividades culturais e de educação ambiental, como a trilha interativa “Caminho da Biodiversidade”, organizada no Museu Paraense Emílio Goeldi pelo Consórcio de Pesquisa Brasil-Noruega (BRC). Por meio de QR codes e estações educativas, visitantes foram convidados a explorar curiosidades e pesquisas recentes sobre a fauna e flora amazônica.

O encerramento artístico ficou por conta da cantora paraense Fafá de Belém, que emocionou o público com um show na Estação das Docas. “Levo a Amazônia comigo onde quer que eu vá. É uma honra encerrar um evento que abre caminhos para o futuro da floresta e do planeta”, disse a artista.

Com a leitura da Carta de Belém, que consolidou compromissos sobre descarbonização, bioeconomia, justiça climática e inclusão social, a I Semana do Clima se afirmou como um novo marco nas estratégias de preservação e desenvolvimento da Amazônia. A expectativa agora recai sobre a COP30, onde muitas das discussões iniciadas em Belém deverão ganhar escala internacional.

MOSTRAR MAIS

ARTIGOS RELACIONADOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Translate »